Certa vez, tive uma experiência curiosa com um aluno no curso sobre palestras. Ele fez uma apresentação para a turma e todos foram unânimes em dizer que a palestra tinha sido ótima e ele estava pronto para atuar na área. Não é mentira que a performance de palco foi boa, mas resolvi fazer uma provocação aos demais alunos:

O que vocês levam pra casa dessa palestra? Quais foram os ensinamentos?

Houve um grande silêncio, como eu já imaginava que iria acontecer. Expliquei aos alunos que este fato acontece com frequência, inclusive com grandes palestrantes, e tem sido um problema sério no universo das palestras.

Por isso que muitos especialistas na área do desenvolvimento humano afirmam que palestras formam um campo duvidoso.

A plateia costuma aplaudir a performance e não o conteúdo. Ao final, fica aquela sensação de vazio, pois a palestra não gerou nenhuma ação.

Palestra tem de ter conteúdo! Ponto.

A performance serve pra ajudar na interação com a plateia, mas o rei é o conteúdo. Muitos palestrantes investem demais na performance e oferecem um conteúdo pobre, ou seja, deixam de cumprir seu papel. O palestrante precisa garantir uma entrega de conhecimento com base no tema escolhido, sua proposta de valor. Simples assim. A gente precisa parar de ver a performance como grande destaque das palestras.

Quer ver outra dificuldade comum aos palestrantes?

O hábito de falar sobre si o tempo todo. Isso acaba virando um vício que atrapalha o entendimento do público.

Vejo que muitos profissionais se prendem às suas experiências pessoais, isso deixa a palestra focada demais na sua vida, nos seus feitos. Veja esses exemplos de discurso: “Vou falar como eu faço”, “se eu consegui, todos conseguem”, e por aí vai.

De vez em quando não tem problema, até mostra que o palestrante tem experiência. O que não pode é ficar o tempo todo nessas autorreferências.

Uma das maiores dificuldades nessa área é construir um conteúdo baseado na sua experiência.

Experiência é algo muito particular, nem sempre o histórico do palestrante vai render um grande roteiro de apresentação. Por isso não gosto de colocar como regra que toda palestra precisa trazer experiências pessoais. Lembre-se sempre: o importante é gerar valor.

Minha orientação é traduzir a experiência em conceitos.

Veja este exemplo:

Um profissional de 40 anos, diretor bem-sucedido. No decorrer da vida, superou fases difíceis: o pai faleceu quando ele tinha 10 anos de idade, ainda criança precisou trabalhar para ajudar no sustento da família. Não pôde viver a infância, tanto as brincadeiras quanto os estudos.

Essa é a experiência de vida deste personagem, que só ele pode traduzir e sentir.

Como contar isso e conceituar?

Para superar as dores da minha vida, acreditei muito em mim para ser alguém.

1ª lição: acredite em si mesmo. O que você pode fazer para acreditar em si?

Aprendi a superar as perdas que a vida impôs.

2ª lição: o valor da resiliência. O que acontece quando optamos por superar?

Tive que estudar muito mais do que as outras crianças.

3ª lição: busque conhecimento sempre, quem se conhece sabe onde que chegar.

Aqui, a história pode ser contada da mesma forma, mas traz consigo três conceitos palpáveis que vão gerar uma ação na vida das pessoas que estão assistindo, pois elas podem enxergar com clareza.

Esse é um bom exemplo de roteiro. Somente depois de roteirizar a palestra com experiências e conceituá-las, você deve investir na sua performance de palco. Mais uma vez, conteúdo em primeiro lugar!

Virou moda ser palestrante

De uma hora pra outra ser palestrante virou a sensação. Parece ser algo simples: basta uma ideia ou experiência de vida e pronto, você já pode virar palestrante. Não é nada disso!

Confesso que fico assustado com a banalização da arte de palestrar, mas por outro lado compreendo. A todo instante surgem anúncios e chamadas na internet para as pessoas se tornarem palestrantes.

E tem umas chamadas muito atraentes, tenho que admitir.

“Fique rico dando palestras, tenho a fórmula do sucesso.”

“Aprenda a dar palestras em 5 minutos.”

Muitos profissionais caem nesse conto do bilhete premiado, infelizmente. O mercado perde com isso, a palestra como conceito se enfraquece e passa a ser vista com desconfiança pelas pessoas.

Não pare de estudar!

Eu digo sempre que buscar conhecimentos e se manter atualizado é fundamental em qualquer área e qualquer fase da vida. Quem atua em palestras também precisa se aprofundar na arte de palestrar.

As empresas e os trabalhadores mudaram, as relações humanas devem evoluir.

Não é porque você domina um assunto que sabe dar uma palestra sobre ele.

Sobre a parceria entre conteúdo e performance, vale sempre lembrar: palestras não devem prometer que vão resolver os problemas das pessoas, mas precisam ser um trampolim para darem o primeiro passo em direção ao que pretendem conquistar.  

Palestra é conteúdo! Performance é complemento.

Por Edmar Oneda – CEO da Academia do Palestrante e IDHEO

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